Livros e Leitura

Wabes

Saga:

O movimento da nona arte nos quadrinhos

A linguagem dos quadrinhos incorpora quase todas as expressões conhecidas de arte, tais como desenho, pintura, arquitetura, expressão cênica e narrativa literária, argumento que baseia profundamente os defensores de que as histórias em quadrinhos são, em realidade. Pois, ainda que, para além da questão literária, é preciso também analisar sua relação com as artes plásticas. As artes plásticas nada mais são do que a capacidade de moldar e re-significar os mais diversos materiais para a expressão última de nossos instintos, sentimentos e ideias. Em SAGA, o artista plástico Euques Wabes desenvolve um caminho que interliga o texto de Jeferson Camillo com a representação das formas do corpo humano e inserções realistas ao desenho através de técnicas de iluminação, ângulos inusitados e ressignificação das perspectivas dos objetos. Na obra, percebemos que as histórias em quadrinhos são manifestações artísticas – seja no campo da literatura ou no campo das artes.

COMSEQUÊNCIAS:

A construção de uma narrativa fictícia com fatos históricos de uma cidade global.

O diálogo entre a ficção e a realidade, envolvendo o passado e o presente em relação às estruturas da trama, apresenta um caráter realista nas duas fases de um romance ambientado em recortes das intensas transformações na formação socioespacial da metrópole paulista. Assim, a construção das narrativas e seus questionamentos das histórias oficiais foram estruturados nos períodos em que estão inseridos: primeiro, na memória urbana da expansão horizontal, que se intensificou quando foi instituído o sistema de vendas de terrenos a prestação, e a população de mais baixa renda foi empurrada para a autoconstrução em lotes periféricos; segundo, na expansão vertical, quando os edifícios altos constituíam uma simbologia que encontrou seu espaço na ideia de modernização da maior cidade brasileira.

Quando os autores foram apresentados na pequena Itarantim, cidade da região agropastoril do centro sul baiano, perceberam que tinham em comum, a assimilação cultural e o interesse intenso pela envolvente e desvairada loucura que inspira na cidade São Paulo: Jeferson Camillo, nascido na cidade de Bauru, tem um laço estabelecido com a capital paulista desde o período em que buscava autoafirmação quando estudava as liberdades humanitárias, políticas e filosóficas no curso de direito; enquanto J Rodrigues Vieira que nasceu em Osasco, cidade da região metropolitana no chamado período inicial do ‘pós-industrial’, na experiência do adolescer, inquieto, encantado e aventureiro, numa experimentação fascinante, observava e absorvia a intensidade inimaginável das experiências humanas região central da cidade. O diálogo fluiu e voltaram a se encontrar, agora na cidade de São Paulo, para juntos mergulharem nos subterrâneos imaginários de uma metrópole que é um dos maiores centros culturais do mundo.

O primeiro trabalho que realizaram juntos foi a construção de um roteiro cinematográfico — D'Alma – O Pacto (em produção) —, baseado numa obra inédita de Jeferson Camillo, que traz os dramas existenciais nos dilemas éticos das sociedades contemporâneas que provocam conflitos sentimentais humanos, mediante os resultados de um pacto involuntário que gera incerteza e obscuridade. Naquele período, ambos também enfrentavam dilemas pessoais a resolver. Por conta de pontuais situações emocionais conturbadas, nem tudo foi harmônico num primeiro instante: visões sociais e abordagens políticas diferentes; personalidades e temperamentos fortes e conflitantes. Certas ocasiões um tanto graves, controvérsias e interferências provocaram dificuldades para harmonizar estilos e encontrar o ponto de equilíbrio em relação às estruturas do trabalho. Contudo, atenuadas as diferenças, não se fecharam sobre significações artísticas de criação literária para escrever um romance dividido em duas partes com protagonismo de várias personagens. Após diálogos que geraram debates quase intermináveis, o que facilitou a construção da obra foram suas conexões intensas e suas sensíveis experiências perceptivas com os lugares onde acontecem as principais ações da trama. Para ir além do sentido literal das palavras e criar uma relação entre o emocional e o intelecto, os autores carregaram os fatos históricos de emoções e todos os contrapontos foram convertidos em artifícios para imaginar cenários e manter a essência da realidade, observando o mundo real, não só com personagens e diálogos, mas também com descrições detalhadas dos espaços centrais da narrativa, com infinitas possibilidades capazes de convencer, emocionar e confundir.

Atentos à veracidade das situações cotidianas de uma cidade global que une distintos costumes e culturas de migrantes e imigrantes, seja por coisas boas ou ruins, seus autores retrataram a sociedade muito verossímil e coerente, sem idealizações, a partir do comportamento das personagens com proporção e elegância numa narrativa longa que possui uma ação impressionante no tempo em que ela acontece no limite entre o real e o imaginário na metrópole paulista: histórias se misturam e se transformam em sonhos, ganâncias e trapaças envoltas em contornos ordinários e contraditórios, sem quaisquer conceitos de moralidade. Assim, COMSEQUÊNCIAS, romance histórico e realista, se caracteriza por conta de sua abordagem objetiva e impessoal da realidade de uma cidade pulsante, caótica, moderna e inclusiva.